A vida na fornalha
Com trabalho subumano e a devastação
das matas, as carvoarias instaladas
em grotões alimentam a siderurgia nacional
Lucila Soares
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Fotos: Marcos Prado
Carvoeiro no depósito
de siderúrgica em Minas
e, abaixo, menina fazendo
fogueira em Goiás: para
ferver a água
O trator estaciona e uma grossa corrente é presa à árvore. A máquina começa a andar e, em poucos minutos, a árvore vai ao chão, arrancada pela raiz. Perto dali, são centenas as toras de madeira empilhadas. Na paisagem cinzenta, circulam homens negros da cabeça aos pés por causa da fuligem que sai dos fornos onde essa madeira é queimada para produzir carvão vegetal. Sem camisa, botas, luvas ou máscaras, les carregam dezenas de caminhões com os cilindros negros, que partem rumo às siderúrgicas. Às vésperas do século XXI, é assim que funciona boa parte da produção brasileira de carvão vegetal, combustível da indústria de ferro-gusa. É a queima do carvão nos altos-fornos que transforma o minério de ferro em gusa, metal puro que tem na fabricação do aço seu principal destino. É um dramático encontro entre dois mundos. De um lado a siderurgia moderna. De outro, uma devastação ambiental sem paralelo e condições de trabalho tão primitivas que parecem saídas de um panfleto revolucionário dos primórdios da Revolução Industrial.
No decorrer do século, a construção da indústria de ferro-gusa, que reúne 52 empresas e faturou 700 milhões de dólares no ano passado, custou a devastação de uma área de Mata Atlântica e cerrado em Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso e Goiás quase do tamanho da França. No momento, a maior ameaça de devastação está na região do projeto Grande Carajás, no Pará, uma área equivalente a mais de três vezes o Estado de São Paulo. As indústrias de ferro-gusa começaram a se instalar na região no final dos anos 80, atraídas pela maior jazida de minério de ferro de alto teor do mundo. Como o preço do ferro-gusa anda pouco convidativo, a produção de carvão está comendo a mata amazônica, mas devagar. As reservas de minério, que somam 18 bilhões de toneladas, podem durar mais 400 anos. "É tempo mais que suficiente para consumir toda a floresta", diz Philip Fearnside, coordenador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa.
Carvoaria com 200 fornos
em Mato Grosso:
fumaça e lenha
Simplesmente não existem estatísticas sobre o trabalho quase clandestino realizado pelas carvoarias independentes nos grotões da Amazônia, do Centro-Oeste e no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Há 60.000 carvoeiros no Brasil, segundo estimativa de Cláudio Guerra, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, e consultor do Unicef. É um exército que trabalha em condições subumanas e vive principalmente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A maioria deles nasceu em Minas Gerais, é analfabeta e se submete a jornadas de até doze horas. Perdidos em lugares distantes das cidades, dedicam suas horas de lazer à cachaça. Essa sombria história entrou na vida do fotógrafo carioca Marcos Prado em 1991. Numa viagem pelo sul da Bahia, ele topou pela primeira vez com o cenário desolador de fornos, fumaça, árvores retorcidas e homens cobertos de fuligem que caracterizam a produção artesanal de carvão. Decidiu ali mesmo fazer um ensaio fotográfico sobre os carvoeiros. Correu contra o relógio, apresentou o projeto à organização da Conferência Mundial do Meio Ambiente, a Eco 92, e teve sua exposição incluída no evento oficial. O ensaio recebeu prêmio da World Press Photo, equivalente ao Oscar da fotografia, na categoria natureza e meio ambiente. Em 1996, Prado retomou o tema. Suas fotos animaram um grupo de brasileiros e ingleses a produzir um documentário cinematográfico sobre o assunto. A equipe percorreu mais de 5.000 quilômetros em Minas, Mato Grosso do Sul, Bahia, Pará e Goiás e gastou 500 rolos de filme fotográfico até concluir a empreitada, batizada de Os Carvoeiros. O resultado é um livro de 190 páginas, cujas fotografias ilustram esta reportagem, e um documentário com versões em vídeo e película com 70 minutos de duração. Ambos serão lançados no início de dezembro.
No pátio de uma pequena
fábrica em Minas:
hora do descanso
Os Carvoeiros é um relato impressionante sobre o drama ambiental e social que o carvão vegetal representa no Brasil. É verdade que, hoje, 67% do carvão é produzido com madeira de áreas reflorestadas. Mas isso significa que, dos 26 milhões de metros cúbicos produzidos no país, mais de 8 milhões ainda vêm de vegetação nativa. Para encher um único caminhão de carvão (50 metros cúbicos) é preciso destruir uma área de cerrado equivalente a dois campos de futebol. O Brasil é o único país do mundo que tem sua produção de ferro-gusa movida a carvão vegetal. O produto tem vantagens inegáveis em comparação com o coque, produzido a partir do carvão mineral. A começar pelo fato de que as jazidas de carvão mineral brasileiras, que ficam em Santa Catarina, não se prestam ao uso em siderurgia. A alternativa do coque deixa o produtor brasileiro dependente de importação e sujeito às oscilações do mercado internacional. Nem os ambientalistas podem levantar bandeiras a favor da importação do coque. Do ponto de vista da preservação ambiental, o carvão vegetal é a melhor alternativa. Isso porque o carvão mineral é um combustível fóssil, não renovável e potencialmente poluente por liberar enxofre. Como se não bastasse, sua queima contribui para o aquecimento global, o temido efeito estufa, à medida que libera gás carbônico. A queima de carvão vegetal também resulta em emissão de carbono para a atmosfera, mas o gás é reabsorvido pela reposição da vegetação, que precisa dele para respirar. Na contabilidade ambiental, o carvão vegetal permite que a emissão final de gás carbônico seja zero, desde que, evidentemente, haja o replantio.
Brincando na boca do forno:
profissão em família
Menos de sete de cada dez sacos de carvão vêm de madeira reflorestada. O restante é rapinado na mata natural. Não há sombra de controle sobre as condições em que esse carvão é fabricado. "É o mercado que manda", diz José Batuíra, secretário executivo da Associação Brasileira de Florestas Renováveis. Ela tem a sigla Abracave porque já se chamou Associação Brasileira de Carvão Vegetal. Trocou o nome para se adaptar aos tempos de preocupação ecológica, mas nem por isso seus afiliados mudaram o modo de produção. A indústria do ferro-gusa lava as mãos sobre a devastação ambiental causada por aquele carvão vegetal que compra de produtores independentes. Também faz de conta que não sabe das condições de trabalho nesses lugares. São instalações primitivas, nômades, pois os fornos de barro mudam de lugar quando escasseia a madeira para queimar. A mão-de-obra é utilizada por meio da terceirização – uma palavra refinada demais para um sistema no qual vigoram relações de trabalho pré-capitalistas. Enquanto as grandes empresas desenvolvem novas tecnologias de reflorestamento, a produção de carvão por empreitada derruba mata nativa ou replantada com métodos arcaicos. "Eu acredito que o carvão não vai acabar nunca", afirma Antônio Pedro, construtor de fornos desde criança. "Quando acabar aqui, você já está lá em Mato Grosso, quando acabar por lá, você já vai estar na Amazônia. Enquanto existir siderúrgica não acaba o carvão."
Trator arrasta raiz em
área desmatada: a
corrente é do tipo usado
em âncora de navio
O mineiro Chiquitito é um desses empreiteiros "terceirizados". Começou trabalhando como carvoeiro e hoje é responsável por uma carvoaria em Mato Grosso do Sul. Ele se orgulha de dar serviço para dez "companheiros" e fez um depoimento revelador ao fotógrafo Marcos Prado. "Cada um tem a sua parte. No fim do mês cada um carrega a sua. Aquele que for inteligente segura. O que for bobo...", diz. O bobo gasta ali mesmo, com cachaça. Chiquitito tem uma microempresa. Se a fiscalização constatar alguma irregularidade, é ele quem paga a conta, não a indústria que consome o carvão. A utilização de mão-de-obra infantil também escapa à fiscalização. Os próprios pais ensinam o trabalho aos filhos, que conseguem um dinheirinho extra à custa de um trabalho que mina também a saúde dos adultos. Um estudo da UFMG no Vale do Jequitinhonha, a região mais pobre de Minas Gerais, mostra os riscos que os carvoeiros correm permanentemente. Durante o enchimento de um forno com toras de eucalipto, o trabalhador chega a carregar 7 toneladas por hora. Isso sem falar nas doenças respiratórias e na permanente irritação dos olhos provocadas pela fumaça que respiram em jornadas sem sábados, domingos ou feriados.
As crianças são, naturalmente, vítimas das mesmas condições insalubres. Os pais, que normalmente ganham por empreitada, põem os filhos no trabalho para garantir a renda da família. A maioria deles passou por isso na infância. Nessa lógica perversa que junta miséria, exploração e ignorância, ser carvoeiro é quase um destino. Quando chega à idade de escolher uma profissão, o garoto não sabe nem ler – só sabe fazer forno e carvão. É essa a história de José Idarlan. Ele tem 32 anos e começou a trabalhar com seu pai, José Raimundo, quando tinha apenas 6, ainda em Minas Gerais, onde nasceu. Ficava ali do lado, olhando o trabalho, e aprendendo. Em pouco tempo sabia fazer forno tão bem que o pai deixou essa parte do serviço por conta dele. Mas, claro, não freqüentou escola e não teve escolha. Quando o pai largou a mãe e ele se viu obrigado a ajudar no sustento da casa, foi procurar trabalho na carvoaria mais próxima. Hoje, já trabalhando em Ribas do Rio Pardo, Mato Grosso do Sul, preocupa-se com o futuro dos filhos. "Não quero isso para eles", diz. "A gente sofre demais."
No depósito da siderúrgica em Minas: lona para
proteger a pilha de 15
metros de carvão
O problema ambiental causado pelo carvão vegetal é de difícil solução. Não basta replantar. O caso de Minas Gerais é exemplar. O Estado é um mar de eucalipto. Tem 1,8 milhão de hectares reflorestados, 80% com essa espécie, cujo plantio foi estimulado com subsídios pesadíssimos da década de 70 até 1984. É uma alternativa questionável sob o ponto de vista ambiental se for utilizado o esquema de monocultura, que predomina. O uso do eucalipto no reflorestamento se deve ao seu rápido crescimento – cerca de sete anos. E não existe mágica na natureza. "Para crescer muito rápido, o eucalipto consome tudo de bom que a terra tem, todos os nutrientes, inclusive a água", explica Cláudio Guerra, da UFMG. Por isso seu efeito ambiental, quando plantado em grandes áreas contínuas, é devastador, pois nenhuma outra planta cresce ao seu lado. Em Mato Grosso do Sul, o mar de eucalipto é herança do retumbante fracasso econômico do projeto subsidiado pelo governo Médici, na década de 70, que previa a instalação de um megapólo produtor de celulose na região de Três Lagoas. Foram plantados 500.000 hectares de eucalipto no lugar do cerrado. Com a crise decorrente do choque do petróleo, o projeto foi abandonado. Dez anos depois, essa verdadeira mina foi descoberta pelos empreiteiros do carvão. Foram centenas as pequenas e médias empresas carvoeiras a se instalar na região, que se tornou o segundo pólo produtor de carvão do país.
Carvoeiro descansa junto
ao forno, na Bahia: maioria vem de Minas
Os representantes da indústria não consideram seu produto responsável pelo desmatamento. Para o presidente do Sindicato dos Produtores de Ferro-Gusa, Luiz Eduardo Lopes, o carvão leva uma culpa que, na verdade, é da expansão da fronteira agrícola e pecuária. Evidentemente, os dois fatores se somam. Estados como São Paulo e Paraná, que não produzem carvão, igualmente devastaram a Mata Atlântica. No caso do carvão, porém, a relação de causa e efeito é evidente. Talvez só no Brasil uma indústria moderna – a siderurgia – seja abastecida por uma atividade que parece saída de um romance do inglês Charles Dickens, aquele que descreveu a Inglaterra dos tempos em que os homens andavam em carroças, as ruas de Londres eram cobertas de lama e esgoto, a infância dava duro para algum patrão em vez de estudar, e as vielas estavam infestadas de assaltantes. É irônico que se trate de carvão, o insumo energético que teve papel fundamental no processo de industrialização da Europa e hoje é desimportante no Primeiro Mundo. "No século passado, o carvão tinha a mesma importância que hoje têm o petróleo e a energia nuclear", afirma o professor Fernando Abrúcio, da Pontifícia Universidade Católica, PUC, de São Paulo. "O carvão foi o combustível do capitalismo." Operários de um setor vital da economia, os mineiros do carvão formaram sindicatos poderosos e, em muitos casos, estão na origem dos direitos trabalhistas atuais. Eles serviram de inspiração para o sindicalismo moderno e para os teóricos do socialismo. Karl Marx os considerava os trabalhadores típicos. Tudo isso virou história nos anos 70, quando as últimas minas européias se tornaram antieconômicas. Na década seguinte, Margaret Thatcher quebrou a espinha do sindicalismo inglês derrotando a última grande greve dos mineiros do carvão.
Carregando o caminhão
na Bahia: um trabalho feito por empreitada Caminhão de carvão em Goiás: lenha equivalente a dois campos
de futebol
O Brasil não tem como se livrar do carvão. O que poderia fazer era civilizar sua produção. Para começar, a produção "de mercado" precisa de intervenção mais enérgica. Os realizadores do projeto "Os Carvoeiros" encontraram pelo menos um exemplo alentador. Foi em Ribas do Rio Pardo. Lá funciona o bem-sucedido programa Bolsa-Escola, da Secretaria de Ação Social, com apoio do Unicef. O projeto parte da premissa de que os pais incentivam o trabalho dos filhos para aumentar a renda da família. Com isso, não só os expõem a um nível de exploração cruel como os impedem de estudar, o que perpetua a situação: sem alternativa, o futuro da maioria é continuar no carvão. A Bolsa-Escola garante uma renda de 50 reais por mês para cada criança entre 7 e 14 anos que freqüentar a escola. Em dois anos, acabou o trabalho infantil em Ribas do Rio Pardo. Sinal de que problemas complexos têm, às vezes, soluções muito simples. É só querer resolver.
Na rota dos carvoeiros
Oscar Cabral
Marcos Prado: fotos de atraso e miséria
Para documentar a vida dos carvoeiros, o fotógrafo Marcos Prado largou o conforto de seu apartamento na Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e percorreu mais de 5.000 quilômetros nos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará, Bahia e Goiás. Ele e os oito outros membros da equipe de documentaristas comeram muita poeira e sentiram na pele, nos olhos e no nariz as péssimas condições em que vivem e trabalham adultos e crianças. Foram gastos 500 rolos de filme na produção do ensaio fotográfico e rodadas 32 horas de documentário para o projeto orçado em 1 milhão de reais e patrocinado majoritariamente por Volkswagen, Telefônica e Banco Pactual. O livro com as fotos, feitas entre 1991 e 1998, será lançado no próximo mês.
As dificuldades para documentar o atraso e a miséria não foram poucas. Na Amazônia, para descobrir uma carvoaria foi preciso seguir um caminhão de carvão durante horas numa estrada em péssimas condições. O resultado compensou. Prado tem 37 anos e começou a fotografar aos 17. Em 1983 matriculou-se no curso do Brooks Institute of Photography, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. Quando voltou ao Brasil foi trabalhar na revista Trip, onde ficou por seis anos.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
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